Este
post é dedicado a Valéria, de quem eu não pude deixar de lembrar ao ler "A Câmara Clara" de Roland Barthes.
O ato de fruir e (re)produzir fotos seria, para o autor, um ato de
estudium (
lat. investimento geral e ardoroso em algo) e também
punctum (
lat. pequeno corte, buraco ou pequena mancha, além de lance de dados/acaso). Acho que esta definição vem de encontro com as intenções do nosso grupo: a poética e a poiésis em arte. Cada vez mais pontos e estudos se integram, formando traços mais amplos de delineamento do grupo. A partir da conecção que fiz entre esta obra de Barthes, que é a última editada em vida, e as imagens do trabalho de Ana Valéria, destaco os fragmentos do texto intercalado por uma fotografia do trabalho da artista.
"Gosto desses ruídos mecânicos de uma maneira quase voluptuosa, como se, da Fotografia, eles fossem exatamente isso - e apenas isso - a que meu desejo se atém, quebrando com seu breve estalo a camada mortífera da Pose. Para mim, o barulho do tempo não é triste: gosto dos sinos, dos relógios - e lembro-me de que originalmente o material fotográfico dependia das técnicas da marcenaria e da mecânica de precisão: as máquinas, no fundo, eram relógios de ver, e talvez em mim alguém muito antigo ainda ouça na máquina fotográfica o ruído vivo da madeira." (BARTHES,
A Câmara Clara, p. 30)

Um detalhe importante: durante a apresentação dos slides na banca de graduação/IA-UFRGS de Valéria pude ouvir esse barulhinho mecânico revelador promovido pelo projetor de slides. Era como se ele falasse com a voz rouca e envelhecida "isto é um slide", "isto é um slide", coisa depois ressaltada pela artista ao brincar com a mídia, desenhando com as imperfeições dos slides projetadas na tela.
O trabalho da artista assume um tempo de maturação, o que é admirável. O processo de trabalho é pontuado por obras representativas, mas mantém-se em constante transformação. Das constantes revisitas ao trabalho, amplia-se a gama de compreensões tanto da artista como do espectador. O jogo de imagens entre o expresso e o oculto desafia o espectador a supor regras, a aventurar-se, como diria Barthes, no universo criado pela artista.